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Kóstas Kariotákis
Public domain · Wikimedia Commons

B1Grécia moderna · Poeta

Kóstas Kariotákis

Κώστας Καρυωτάκης

1896 – 1928 · Trípoli; Atenas; Préveza

Kóstas Kariotákis (Κώστας Καρυωτάκης, 1896–1928) foi um funcionário público que escreveu três finos livros de poemas e se matou com um tiro aos trinta e um anos na pequena cidade de Préveza. Os seus versos amargos e exatos sobre o tédio, as repartições e a morte fizeram dele a voz de uma geração desiludida, e o poema Πρέβεζα (Préveza), escrito poucos dias antes de morrer, é um dos mais citados do grego moderno. Em português o nome surge também como Kostas Karyotakis.

A vida

Kariotákis nasceu a 30 de outubro de 1896 em Trípoli, no Peloponeso. O pai era engenheiro civil e o seu trabalho levava a família de cidade em cidade: Lêucade, Argostóli, Larissa, Kalamata, Atenas, Chania. Estudou Direito em Atenas, licenciou-se em 1917 e tentou por pouco tempo exercer advocacia, mas cedo entrou na função pública, onde ficaria o resto da vida, colocado em prefeituras de Salónica, Siros, Arta, Atenas e outros lugares. Detestava o trabalho e dizia-o nos seus poemas.

Em 1922 conheceu a poetisa Maria Polydouri, que trabalhava na mesma repartição em Atenas. A relação foi curta e dolorosa; ela viria a escrever alguns dos poemas de amor mais apaixonados da língua grega, muitos deles para ele, e morreu de tuberculose em 1930. Kariotákis foi também ativista sindical dos funcionários públicos, o que não ajudou a sua carreira.

No início de 1928 foi transferido, como castigo, para Préveza, uma pequena cidade do noroeste da Grécia. Chegou em junho e aguentou apenas um mês. A 20 de julho tentou afogar-se e, segundo o seu próprio relato, lutou contra as ondas durante dez horas antes de desistir. No dia seguinte, 21 de julho de 1928, comprou um revólver e deu um tiro em si mesmo debaixo de um eucalipto perto da costa. O bilhete que tinha no bolso, hoje famoso, termina com um conselho trocista a quem saiba nadar: que nunca tente afogar-se.

A obra

Kariotákis publicou apenas três coletâneas: Ο πόνος του ανθρώπου και των πραγμάτων (A dor do homem e das coisas, 1919), Νηπενθή (Nepentes, 1921) e Ελεγεία και Σάτιρες (Elegias e Sátiras, 1927). Os primeiros livros são melancólicos à moda da época; o último é o que conta. As suas elegias falam de uma vida que já falhou, numa voz ao mesmo tempo terna e irónica: «Είμαστε κάτι ξεχαρβαλωμένες κιθάρες» (Somos umas guitarras desconjuntadas), assim começa o poema Είμαστε κάτι… (Somos umas…). Em Ιδανικοί αυτόχειρες (Suicidas ideais) descreve pessoas que planeiam a morte com cuidado e depois, no último verso, a adiam.

As sátiras voltam a mesma amargura para fora. Δημόσιοι υπάλληλοι (Funcionários públicos) mostra amanuenses a gastarem-se lentamente nas repartições como colunas; Μικρή ασυμφωνία εις Α μείζον (Pequena dissonância em lá maior) troça do poeta da moda Miltiadis Malakasis. O seu estilo é tradicional na forma, com rima e métrica rigorosa, mas a língua é a do dia a dia e as imagens vêm da vida moderna: elétricos, máquinas de escrever, cafés, a farmácia. Πρέβεζα, escrito nas suas últimas semanas, enumera as gralhas nos muros negros, o polícia que pesa uma porção com falta de peso, a banda que toca ao domingo, uma caderneta bancária com um primeiro depósito de trinta dracmas, e termina com a ideia de que, se ao menos um dos habitantes morresse de nojo, todos se divertiriam no funeral. Traduziu também poetas franceses como Baudelaire e Verlaine, cuja influência atravessa a sua obra.

O legado na Grécia de hoje

Kariotákis é o único poeta da antologia escolar grega que os adolescentes costumam adotar como seu; Πρέβεζα, Ιδανικοί αυτόχειρες e Μικρή ασυμφωνία são lidos e decorados no liceu. O seu tom foi tão imitado depois de 1928 que os críticos cunharam a palavra καρυωτακισμός (cariotaquismo) para os versos sombrios à sua maneira, um termo ainda hoje usado. Os seus poemas foram musicados por muitos compositores: comece pelo álbum Καρυωτάκης (1982) de Lena Platonos, e procure a ópera de Mikis Theodorakis sobre ele. Uma série de televisão, Καρυωτάκης, foi transmitida pela ERT em 2009. Em Préveza um monumento assinala o local onde morreu, e o seu nome está em ruas de Trípoli, Atenas e Préveza. Quando os gregos suspiram com a sua própria função pública, há sempre alguém que o cita.

Sabia que…?

  • O seu bilhete de suicídio termina com um pós-escrito a aconselhar quem saiba nadar a nunca tentar o suicídio no mar: tinha acabado de passar dez horas sem conseguir afogar-se.
  • Os poemas de amor que Maria Polydouri lhe dedicou tornaram-se, depois da morte de ambos, uma espécie de romance trágico nacional; os dois são muitas vezes lidos juntos na escola.
  • A transferência para Préveza foi um castigo devido, em parte, à sua atividade no sindicato dos funcionários públicos.
  • Uma das suas sátiras é dirigida à Estátua da Liberdade de Nova Iorque, «που φωτίζει τον κόσμο» (que ilumina o mundo); nunca pôs os pés na América.

Obras principais

Título gregoTítuloAno
Ο πόνος του ανθρώπου και των πραγμάτωνA dor do homem e das coisas1919
ΝηπενθήNepentes1921
Ελεγεία και ΣάτιρεςElegias e Sátiras1927
Ιδανικοί αυτόχειρεςSuicidas ideais1927
ΠρέβεζαPréveza1928

Uma frase para reter

Είμαστε κάτι ξεχαρβαλωμένες / κιθάρες. Ο άνεμος, όταν περνάει, / στίχους, ήχους παράφωνους ξυπνά / στις χορδές που κρέμονται σαν καδένες.

Eimaste kati xecharvalomenes / kithares. O anemos, otan pernaei, / stichous, ichous parafonous xypna / stis chordes pou kremontai san kadenes.

Somos umas guitarras / desconjuntadas. O vento, ao passar, / desperta versos, sons dissonantes / nas cordas que pendem como correntes.

Είμαστε κάτι…, Ελεγεία και Σάτιρες (1927)

No texto original

O texto tal como Kóstas Kariotákis o escreveu, em domínio público, com a nossa própria tradução ao lado.

«Πρέβεζα»Préveza

O poema completo, um dos últimos que Kariotakis escreveu na cidade de província de Préveza, em 1928, pouco antes de ali se suicidar: uma enumeração seca de coisas quotidianas, cada uma chamada morte.

Θάνατος είναι οι κάργες που χτυπιούνταιMorte são as gralhas que se batem
στους μαύρους τοίχους και τα κεραμύδια,contra as paredes negras e as telhas,
θάνατος οι γυναίκες, που αγαπιούνταιmorte as mulheres, que se deixam amar
καθώς να καθαρίζουνε κρεμμύδια.como quem descasca cebolas.
Θάνατος οι λεροί, ασήμαντοι δρόμοιMorte as ruas sujas, insignificantes,
με τα λαμπρά, μεγάλα ονόματά τους,com os seus grandes nomes ilustres,
ο ελαιώνας, γύρω η θάλασσα, κι ακόμηo olival, em volta o mar, e ainda
ο ήλιος, θάνατος μες στους θανάτους.o sol, morte entre as mortes.
Θάνατος ο αστυνόμος που διπλώνειMorte o polícia que se dobra
για να ζυγίση μια «ελλειπή» μερίδα,para pesar uma porção «em falta»,
θάνατος τα ζουμπούλια στο μπαλκόνι,morte os jacintos na varanda,
κι ο δάσκαλος με την εφημερίδα.e o professor com o jornal.
Βάσις, Φρουρά, Εξηκονταρχία Πρεβέζης.Base, Guarnição, Companhia da Gendarmaria de Préveza.
Την Κυριακή θ' ακούσουμε την μπάντα.No domingo vamos ouvir a banda.
Επήρα ένα βιβλιάριο ΤραπέζηςAbri uma caderneta de poupança,
πρώτη κατάθεσις δραχμαί τριάντα.primeiro depósito: trinta dracmas.
Περπατώντας αργά στην προκυμαία,Passeando devagar pelo cais,
«υπάρχω;» λες, κ' ύστερα «δεν υπάρχεις!»«existo?», dizes, e depois «não existes!».
Φτάνει το πλοίο. Υψωμένη σημαία.Chega o navio. Bandeira içada.
Ίσως έρχεται ο Κύριος Νομάρχης.Talvez venha o senhor Governador Civil.
Αν τουλάχιστον, μέσα στους ανθρώπουςSe ao menos, no meio destas
αυτούς, ένας επέθαινε από αηδία...pessoas, um morresse de nojo...
Σιωπηλοί, θλιμμένοι, με σεμνούς τρόπους,Calados, tristes, com modos recatados,
θα διασκεδάζαμε όλοι στην κηδεία.divertir-nos-íamos todos no funeral.

«Πρέβεζα» (1928), complete · Texto em domínio público, fonte: el.wikisource.org

B1

Ler sobre Kóstas Kariotákis em grego (B1)

Palavras do texto

  • advogado
  • funcionário público
  • tédio
  • solidão
  • triste
  • irónico
  • compositor
  • quotidiano

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