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Plutarco
Odysses · CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons

B2Antiguidade · Biógrafo e ensaísta

Plutarco

Πλούταρχος

c. 46 – c. 120 · Queroneia (Beócia); Delfos

Plutarco (Πλούταρχος, c. 46–c. 120 d.C.), sacerdote de Apolo em Delfos, natural da pequena cidade beócia de Queroneia, escreveu as Βίοι Παράλληλοι (Vidas Paralelas), biografias aos pares de gregos e romanos célebres, Alexandre ao lado de César, Teseu ao lado de Rómulo. Através delas, e dos ensaios das Ηθικά (Moralia), deu à Europa o seu reservatório de episódios antigos: Alexandre a domar Bucéfalo, Diógenes a pedir-lhe que lhe saísse da frente do sol, César no Rubicão. As peças romanas de Shakespeare são Plutarco recontado.

A vida

Plutarco nasceu por volta de 46 d.C. em Queroneia, uma pequena cidade da Beócia conhecida sobretudo pela batalha em que Filipe da Macedónia esmagou as cidades gregas em 338 a.C. A sua família era antiga e abastada, e estudou filosofia e retórica em Atenas com o platónico Amónio. Viajou até Alexandria e à Ásia Menor e várias vezes a Roma, onde deu palestras e fez amigos poderosos; um deles, Lúcio Méstrio Floro, obteve-lhe a cidadania romana, pelo que o seu nome oficial era Lúcio Méstrio Plutarco. Uma tradição posterior afirmou que Trajano e Adriano o honraram com altos cargos, o que talvez seja exagerado, mas é certo que se movia com à-vontade no mundo romano.

Escolheu, porém, viver em Queroneia. Dizia que ficava para que a cidade não se tornasse ainda mais pequena, e serviu-a como magistrado e até como supervisor de obras. Nas três últimas décadas da sua vida foi também um dos dois sacerdotes permanentes de Apolo em Delfos, a poucas horas de distância, e empenhou-se em revitalizar o santuário. Casou com Timóxena, e a carta de consolação que lhe escreveu quando morreu a filha pequena de ambos, também chamada Timóxena, conserva-se entre as Moralia. Dos seus filhos, dois chegaram à idade adulta. Reunia em casa um círculo de amigos e discípulos, e grande parte dos seus escritos lê-se como as conversas desse círculo. Morreu por volta de 120, com mais de setenta anos.

A obra

As Βίοι Παράλληλοι (Vidas Paralelas) são vinte e três pares de biografias conservados, cada um juntando um grego a um romano e terminando normalmente com uma breve comparação: Teseu e Rómulo, os fundadores; Alexandre e César, os conquistadores; Demóstenes e Cícero, os oradores; Péricles e Fábio Máximo; Licurgo e Numa. O que interessa a Plutarco é o carácter, não os acontecimentos. Como diz no início da Vida de Alexandre, escreve vidas, não história, e uma pequena observação ou uma piada revelam muitas vezes um homem melhor do que uma batalha com dez mil mortos. Por isso recolhe o momento revelador: o jovem Alexandre a acalmar o cavalo Bucéfalo virando-o para longe da sua sombra; César a chorar diante de uma estátua de Alexandre porque com a mesma idade ainda nada tinha feito; Arquimedes morto enquanto desenhava figuras na areia.

As Ηθικά (Moralia) são cerca de setenta e oito ensaios e diálogos sobre todos os assuntos: como distinguir o bajulador do amigo, como ouvir palestras, conselhos aos noivos, os atrasos da justiça divina, o rosto na lua, se são mais espertos os animais da terra ou os do mar, os oráculos de Delfos, os deuses do Egito em Περί Ίσιδος και Οσίριδος (Sobre Ísis e Osíris). As Συμποσιακά (Conversas à mesa) registam conversas de jantar sobre questões como a razão por que os velhos leem melhor ao longe. A sua coletânea de ditos espartanos conserva «ἢ τὰν ἢ ἐπὶ τᾶς», a ordem da mãe para voltar com o escudo ou sobre ele. O seu grego é a prosa culta do Império Romano, de frases longas, calorosa e cheia de digressões, e durante séculos foi o mais lido de todos os autores gregos: Montaigne citava-o constantemente, e o Plutarco inglês de Thomas North, de 1579, tornou-se a fonte de Júlio César, António e Cleópatra e Coriolano de Shakespeare.

O legado na Grécia de hoje

Na Grécia, Plutarco é lido na escola em excertos, geralmente da Vida de Alexandre ou da de Péricles, e as suas histórias são moeda corrente: «ἢ τὰν ἢ ἐπὶ τᾶς», «ο κύβος ερρίφθη» (a sorte está lançada, que segundo ele César disse no Rubicão) e o próprio título «Βίοι Παράλληλοι», que os gregos usam para qualquer comparação entre dois percursos. Queroneia, perto de Livadeia, conserva ainda o leão de mármore do campo de batalha e um pequeno museu, e em Delfos podem visitar-se o santuário que serviu e o seu museu. Há uma rua Πλουτάρχου em Kolonaki, em Atenas, e na maioria das cidades gregas. As Vidas existem em tradução para grego moderno em edições baratas, e quem aprende pode começar pelas primeiras páginas da de Alexandre, onde Plutarco explica o seu método e conta a história de Bucéfalo.

Sabia que…?

  • O seu nome romano completo era Lúcio Méstrio Plutarco, por causa do amigo que lhe obteve a cidadania.
  • Dizia que ficava na minúscula Queroneia «para que não se tornasse ainda mais pequena».
  • Foi sacerdote de Apolo em Delfos durante cerca de trinta anos, numa época em que o oráculo tinha perdido a maior parte da sua antiga fama.
  • Shakespeare tirou discursos inteiros da tradução das Vidas de North; a descrição da galé de Cleópatra feita por Enobarbo é Plutarco quase palavra por palavra.

Obras principais

Título gregoTítuloAno
Βίοι ΠαράλληλοιVidas Paralelasc. AD 100–120
ΗθικάMoralia (ensaios e diálogos)c. AD 80–120
Περί Ίσιδος και ΟσίριδοςSobre Ísis e Osírisc. AD 100–120
ΣυμποσιακάConversas à mesac. AD 100–120
Λακωνικά αποφθέγματαDitos dos espartanosc. AD 100
Παραμυθητικός προς την γυναίκαConsolação à sua mulherc. AD 90–110

Uma frase para reter

Οὔτε γὰρ ἱστορίας γράφομεν, ἀλλὰ βίους· … πρᾶγμα βραχὺ πολλάκις καὶ ῥῆμα καὶ παιδιά τις ἔμφασιν ἀρετῆς ἐποίησε μᾶλλον ἢ μάχαι μυριόνεκροι.

Em grego de hojeΓιατί δεν γράφουμε ιστορία, αλλά βίους· και συχνά μια μικρή πράξη, μια λέξη ή ένα αστείο φανερώνουν τον χαρακτήρα καλύτερα από μάχες με χιλιάδες νεκρούς.

Oute gar istorias grafomen, alla vious· … pragma vrachy pollakis kai rima kai paidia tis emfasin aretis epoiise mallon i machai myrionekroi.

Pois não escrevemos histórias, mas vidas; e muitas vezes um pequeno ato, uma palavra ou uma piada revelam o carácter mais do que batalhas com dez mil mortos.

Βίος Αλεξάνδρου (Life of Alexander) 1

No texto original

O texto tal como Plutarco o escreveu, em domínio público, com a nossa própria tradução ao lado.

«Βίοι Παράλληλοι, Ἀλέξανδρος»Vidas Paralelas, Alexandre

O prefácio das vidas emparelhadas de Alexandre e César, onde Plutarco declara o que é todo o seu projeto: não história, mas retratos de carácter, apanhados, como o pintor apanha uma semelhança, no pequeno gesto revelador e não na grande batalha.

Τὸν Ἀλεξάνδρου τοῦ βασιλέως βίον καὶ τὸν Καίσαρος, ὑφ’ οὗ κατελύθη Πομπήϊος, ἐν τούτῳ τῷ βιβλίῳ γράφοντες, διὰ τὸ πλῆθος τῶν ὑποκειμένων πράξεων οὐδὲν ἄλλο προεροῦμεν ἢ παραιτησόμεθα τοὺς ἀναγινώσκοντας, ἐὰν μὴ πάντα μηδὲ καθ’ ἕκαστον ἐξειργασμένως τι τῶν περιβοήτων ἀπαγγέλλωμεν, ἀλλ’ ἐπιτέμνοντες τὰ πλεῖστα, μὴ συκοφαντεῖν. οὔτε γὰρ ἱστορίας γράφομεν, ἀλλὰ βίους, οὔτε ταῖς ἐπιφανεστάταις πράξεσι πάντως ἔνεστι δήλωσις ἀρετῆς ἢ κακίας, ἀλλὰ πρᾶγμα βραχὺ πολλάκις καὶ ῥῆμα καὶ παιδιά τις ἔμφασιν ἤθους ἐποίησε μᾶλλον ἢ μάχαι μυριόνεκροι καὶ παρατάξεις αἱ μέγισται καὶ πολιορκίαι πόλεων. ὥσπερ οὖν οἱ ζῳγράφοι τὰς ὁμοιότητας ἀπὸ τοῦ προσώπου καὶ τῶν περὶ τὴν ὄψιν εἰδῶν οἷς ἐμφαίνεται τὸ ἦθος ἀναλαμβάνουσιν, ἐλάχιστα τῶν λοιπῶν μερῶν φροντίζοντες, οὕτως ἡμῖν δοτέον εἰς τὰ τῆς ψυχῆς σημεῖα μᾶλλον ἐνδύεσθαι, καὶ διὰ τούτων εἰδοποιεῖν τὸν ἑκάστου βίον, ἐάσαντας ἑτέροις τὰ μεγέθη καὶ τοὺς ἀγῶνας.Ao escrever neste livro a vida do rei Alexandre e a de César, por quem Pompeu foi derrubado, devido à multidão de feitos que temos diante de nós, nada mais diremos à guisa de prefácio senão pedir aos leitores que, se não relatarmos tudo, nem cada um dos acontecimentos famosos em pormenor, mas abreviarmos a maior parte, não nos censurem. Pois não escrevemos histórias, mas vidas; e nem sempre é nas ações mais brilhantes que se revela a virtude ou o vício, antes muitas vezes um pequeno gesto, uma palavra ou um gracejo mostram o carácter melhor do que batalhas com milhares de mortos, os maiores alinhamentos de exércitos ou os cercos de cidades. Assim, tal como os pintores captam a semelhança a partir do rosto e dos traços do olhar, onde o carácter se mostra, e pouquíssimo se importam com as outras partes do corpo, também a nós deve ser permitido penetrar antes nos sinais da alma e, através deles, retratar a vida de cada um, deixando a outros as grandezas e os combates.

Βίοι Παράλληλοι, Ἀλέξανδρος 1.1–3 (c. AD 100–120) · Texto em domínio público, fonte: el.wikisource.org

B2

Ler sobre Plutarco em grego (B2)

Palavras do texto

  • sacerdote
  • biografia
  • célebre, famoso
  • carácter
  • batalha
  • ensaio
  • anedota, piada
  • considero

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